Saúde
Pesquisa sobre polipílula para prevenção do AVC recruta 8,5 mil voluntários

Pesquisadores brasileiros estão recrutando voluntários desde o final de 2025 para testes com a primeira polipílula brasileira destinada à prevenção de acidentes vasculares cerebrais (AVC) e outras doenças cardiovasculares. O objetivo é reunir 8,5 mil participantes, que serão acompanhados por um período de três a quatro anos.
A polipílula consiste em uma combinação de rosuvastatina 10 mg, que atua contra o colesterol, e dois medicamentos para controle da pressão arterial: valsartana 80 mg e anlodipina 5 mg. Essa formulação permite que os medicamentos sejam ingeridos de forma conjunta.
A primeira fase de testes em humanos, considerada bem-sucedida, envolveu 370 pessoas em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, entre 2020 e 2023.
A pesquisa é conduzida pelo Hospital Moinhos de Vento, em parceria com o Ministério da Saúde, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS). O trabalho é realizado em colaboração com unidades de atenção primária à saúde e secretarias de saúde.
A coordenação do estudo é da neurologista Sheila Martins, chefe do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento.
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“A ideia é que a gente consiga provar a eficácia do tratamento nessas pessoas que são de baixo e médio risco”, disse Sheila à.
De acordo com a pesquisadora, a adesão da população é fundamental para a qualidade dos resultados.
“Quanto maior o número de participantes, mais robustas serão as evidências geradas e maior o potencial de orientar futuras políticas públicas de prevenção”.
Os participantes devem ter entre 50 e 75 anos, nunca ter sofrido AVC ou infarto, e não estar em uso de medicamentos para colesterol, hipertensão ou diabetes. A participação é gratuita e inclui acompanhamento médico periódico por uma equipe especializada.
O recrutamento e o acompanhamento ocorrem em 14 centros de AVC localizados em São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Distrito Federal, Bahia, Pernambuco e Acre. Outros centros em todo o país também estão sendo recrutados, conforme informado por Sheila Martins.
Os voluntários serão sorteados e divididos em dois grupos: um receberá a polipílula e o outro, um placebo, que é uma polipílula sem a medicação ativa.
Durante um período médio de três anos, será avaliado se o tratamento reduz o risco de AVC, demência ou deterioração da memória. Como desfecho secundário, a pesquisa também comparará a redução do risco de infarto, insuficiência cardíaca e morte por doenças circulatórias.
Informações sobre o processo de participação na pesquisa podem ser obtidas pelo telefone ou WhatsApp (51) 99935-6911.
O projeto inclui um aplicativo chamado Riscômetro, que visa empoderar o paciente. Com essa ferramenta, o usuário pode calcular o risco de ter um AVC, um infarto ou uma doença circulatória e aprender a monitorar a redução desse risco.
“Uma coisa importante na fase inicial do estudo foi que as pessoas, usando o aplicativo, puderam mudar seu estilo de vida. Aumentaram a atividade física, por exemplo. Isso é maravilhoso. Elas recebiam mensagens lembrando de fazer atividade física. Quem fumava, parou de fumar. Então, isso motiva as pessoas a mudar para também reduzir o risco”.
O AVC é a principal causa de morte no Brasil e uma das principais causas de incapacidade, conforme afirmou a médica. Dados do Portal da Transparência do Registro Civil indicam que 89.490 brasileiros morreram em decorrência da doença no ano passado.
Globalmente, a Organização Mundial do AVC estima que o número de mortes pela doença pode aumentar em até 50% nas próximas décadas, passando de 6,6 milhões de óbitos em 2020 para cerca de 9,7 milhões em 2050.
A médica ressalta, no entanto, que 90% dos casos podem ser prevenidos com o controle dos principais fatores de risco, sendo a hipertensão o mais relevante. A pressão alta começa a aumentar o risco de AVC a partir de 115 milímetros de mercúrio (mmHg) na pressão sistólica e 75 mmHg na diastólica. A partir desses valores, quanto maior a pressão, maior o risco.
A pressão arterial sistólica (PAS) refere-se à pressão do sangue quando o coração se contrai para impulsionar o fluido para as artérias, enquanto a pressão arterial diastólica (PAD) ocorre no início do ciclo cardíaco, referindo-se à capacidade de adaptação ao volume de sangue que o coração ejetou. A leitura da pressão arterial é medida em milímetros de mercúrio (mmHg).
Sheila Martins explicou que, normalmente, orienta-se pessoas com pressão levemente elevada a mudar o estilo de vida, reduzindo o sal na alimentação, praticando atividade física e evitando o consumo excessivo de álcool. Apenas a partir de 140 x 90 mmHg é que a medicação é prescrita, complementou a médica.
Sheila Martins pondera que, uma vez que se sabe que o risco de AVC aumenta com uma pressão acima de 115 x 75 mmHg, o mundo está se mobilizando para avaliar a necessidade de iniciar o uso de medicação mais cedo.
“O estudo é para evitar o primeiro AVC, usando uma primeira polipílula brasileira nas pessoas que tenham a pressão máxima de 139 e a mínima de 121, com 50 a 75 anos de idade, e que tenham, pelo menos, um dos fatores de risco modificado, como obesidade, sedentarismo, alimentação não saudável e fumo”.
Pessoas que apresentam pressão nesse nível e não utilizam medicamentos para hipertensão, diabetes e colesterol alto correspondem a 85% dos casos de AVC no mundo, descreveu ela.
“São pessoas de baixo e médio risco que têm uma enorme possibilidade de prevenção”, afirmou a neurologista do Hospital Moinhos de Vento.
Os resultados apresentados pela equipe da pesquisa em congressos internacionais, a partir dos primeiros testes, mostraram que, com essa medicação, que é uma dose baixa de medicamento anti-hipertensivo, a pressão é reduzida em 12 mmHg.
Isso significa que, se a pessoa estava com 139 de pressão máxima, por exemplo, a medição cai para 127, afirmou a médica. O colesterol, por sua vez, é reduzido em 40 miligramas por decilitro, uma queda significativa.
Segundo Sheila Martins, trata-se de um estudo importante e um tratamento de baixíssimo risco que pode mudar a política pública no Brasil e no mundo. A dimensão do teste, com 8.500 pessoas em várias partes do país, torna a pesquisa um grande desafio, afirmou ela.
A médica destacou que a fase piloto indicou que a polipílula funciona bem, é bem tolerada e reduz a pressão arterial.
“Agora, a gente está na expansão, que é o que importa. Ou seja, se ela reduz AVC, reduz demência, diminui doenças circulatórias e morte cardiovascular”.
Sheila Martins confia que, em breve, essa polipílula poderá estar disponível no SUS, e afirma que esse é o objetivo da pesquisa.
“O que se precisa agora é que o medicamento seja produzido em escala maior e possa ser disponibilizado para quem já tem pressão alta. Isso é bom, porque são três comprimidos em um só. Facilita a utilização”.
A combinação de medicamentos para essa polipílula foi criada por um comitê executivo nacional liderado pela neurologista, juntamente com um comitê internacional integrado por especialistas renomados em AVC e hipertensão da Austrália, Estados Unidos e Inglaterra.
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